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Artigo: Planejar O Próprio Futuro Não Atrai A Morte — Atrai Segurança: O Que A Psicologia Revela Sobre A Autonomia Da Vontade

Planejar o próprio futuro não atrai a morte — atrai segurança: o que a psicologia revela sobre a autonomia da vontade. *Por Daniel Benedito da Silva | Direito Notarial, comportamento e vida adulta. Tabelião responsável, com tendência a adiar planos — mas atualmente ensaiando coragem para requerer sua própria autocuratela.

Planejar o futuro ainda é um tabu no Brasil. Cuidamos da saúde, fazemos previdência, contratamos seguro do carro — mas quando o assunto envolve autocuratela, testamento, incapacidade ou manifestação antecipada da vontade, a reação mais comum é a fuga emocional.

E não é fuga pequena.

“Se eu falar de incapacidade, vou atrair incapacidade.”

“Testamento é só para idosos.”

“Se eu decidir isso agora, a família vai brigar.”

Essas frases formam o retrato psicológico coletivo do país. Mas a psicologia contemporânea mostra que evitar o planejamento não nos protege — apenas aumenta nossa ansiedade e a probabilidade de conflitos futuros.

Foi para desmistificar esse tema que a Jornada Notarial 2025, promovida pelo Colégio Notarial do Brasil – Seccional Mato Grosso, na pessoa do seu Presidente Edivaldo Semensato, dedicou um episódio especial do podcast ao encontro entre dois mundos que raramente se olham com profundidade: Direito Notarial e Psicologia Clínica.

Participaram da conversa o tabelião Daniel Benedito da Silva e a psicóloga Cristiane Amaral, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e uma das profissionais selecionadas no Brasil para treinamento com Judith Beck, referência mundial na área.

Planejar é um gesto de autocuidado e de saúde emocional

Quando perguntada se a autocuratela — um ato notarial pelo qual a pessoa escolhe quem cuidará de sua saúde, finanças e decisões caso um dia perca a capacidade — seria apenas um tema jurídico, Cristiane não hesitou:

“Com toda certeza, é um tema psicológico. Planejar envolve emoções profundas e nossa baixa tolerância ao mal-estar.”

A psicóloga explica que refletir sobre incapacidade e morte desperta medo — e o medo, na TCC, tem função protetiva. Mas ele também pode paralisar:

“Nossa mente busca prazer e foge do sofrimento. Pensar no futuro é desconfortável, então fugimos. Só que essa fuga aumenta a insegurança.”

Ou seja: aquilo que evitamos no consciente permanece ativo no inconsciente — e isso cobra um preço.

Uma cultura que aprendeu a não planejar

Enquanto muitos países educam crianças para pensar no futuro, guardar dinheiro e prever riscos, no Brasil a lógica é outra:

“Depois a gente vê.”

“Não fala nisso que atrai.”

“Deixa acontecer.”

Cristiane explica isso como uma distorção cognitiva cultural:

“Pensar sobre a morte não atrai a morte. Pelo contrário: nos prepara para quando — inevitavelmente — ela chegar.”

Ignorar a vulnerabilidade não nos torna mais fortes; apenas mais despreparados.

O papel do tabelião: decisões técnicas, emoções humanas

No podcast, Daniel destacou o que testemunha diariamente ao orientar testamentos, doações, escrituras declaratórias e outros atos de manifestação de vontade:

“Recebemos atos perfeitamente redigidos, mas, não sabemos se estão carregados de conflitos familiares não resolvidos, ou não.”

A psicóloga complementa:

“Um filho pode se sentir preterido não por falta de amor, mas por falta de comunicação. O psicólogo ajuda a transformar a escolha em algo racional, não emocional.”

A TCC explica que emoções intensas prejudicam a tomada de decisão racional. Por isso, a autonomia da vontade — fundamento da autocuratela — só é plena quando a pessoa está psicologicamente amparada.

Planejamento saudável não é obsessão — nem ausência

Planejar demais é ansiedade.

Planejar de menos é negação.

Cristiane detalha:

“Nem a ausência total do planejamento, nem o planejamento excessivo é saudável. Precisamos do caminho do meio.”

Fugir do tema não nos protege. Ao contrário: aproxima-nos do risco.

E tentar controlar tudo gera sofrimento.

A função do psicólogo, nesse processo, é ajudar a pessoa a identificar:

✔ se está planejando com equilíbrio

✔ se está sendo movida por medo

✔ se há manipulações familiares

✔ se há crenças distorcidas guiando decisões

✔ se o planejamento está emocionalmente saudável

A autocuratela como expressão máxima da autonomia humana

O Provimento 206/2025 do CNJ transformou a autocuratela em um instrumento central de proteção jurídica. Mas nenhum ato notarial existe isolado da vida emocional de quem o assina.

Daniel sintetiza:

“Tabelião não é psicólogo — e justamente por isso o psicólogo deveria estar presente. A decisão jurídica é técnica, mas a decisão humana nasce da mente, das crenças e das emoções.”

A psicóloga responde:

“Autonomia tem a ver com autoconhecimento. Não é apenas escolher, mas entender por que se escolhe.”

A autocuratela, vista sob a lente da psicologia, deixa de ser apenas um ato jurídico e passa a ser um gesto de profunda maturidade emocional.

A tempestade é certa. O guarda-chuva deveria ser também.

Num dos momentos mais marcantes do episódio, Cristiane fez uma metáfora poderosa:

“Se a tempestade é certa — a morte — por que esperar ela chegar para comprar o guarda-chuva?”

Essa frase sintetiza o espírito da Jornada Notarial 2025: desmistificar o planejamento, aproximar o Direito da psicologia e devolver às pessoas o protagonismo sobre sua própria história.

Autocuratela não chama incapacidade.

Testamento não chama morte.

Planejar não é pessimismo — é cuidado.

Conclusão: o futuro chega. A questão é — você quer estar preparado?

Ao final do podcast, a conclusão foi unânime:

O psicólogo é peça fundamental no planejamento sucessório e na autocuratela.

Não apenas para quem decide, mas para:

— famílias que precisam comunicar escolhas

— tabeliães que lidam com conflitos e emoções diariamente

— advogados que percebem o peso emocional dos processos

— profissionais que também precisam cuidar de sua própria saúde mental

Planejar a própria vontade é a forma mais madura de exercer a autonomia — e talvez o gesto mais elevado de amor por si mesmo.

Evitar o desconforto hoje pode gerar sofrimento amanhã.

Encará-lo com apoio é libertador.

Assista ao episódio completo

A conversa integral está disponível no YouTube do CNB/MT: https://youtu.be/StOKCQO9DPM?si=UiiGIzOlBPI-WiAK

Deixe esse tema entrar naturalmente na sua vida.

Você não está chamando a morte, incapacidade e nem conflitos familiares — está chamando cuidado, segurança e autonomia.

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